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Canal • Editorial

Nossa Capital

Publicado: 12/04/2012 14:46
Matéria Lida: 1546 Vezes

 

Por Vinícius Lena

 


Em recente viagem que fiz ao Sul do país – mais precisamente a Londrina/PR, onde eu fora em visita a familiares – oportunizou-se que no retorno eu passasse por Brasília em horário diurno, já que na ida, ao fazer o trajeto pelo Plano Piloto durante a noite, eu só pudera observar a feérica iluminação da cidade fundada por Juscelino Kubistchek: luzes, luzes e nada mais que me chamasse a atenção.

 


Entretanto, na volta, ao fazer o roteiro a pleno sol, pude observar extasiado o quanto a Nova Capital dos brasileiros – em pouco mais de 50 anos – já se transformou numa megalópole que agrega em seu entorno cerca de dois milhões de habitantes, onde antes de 1960 havia apenas um vazio de humanos, e habitat de emas, veados e cascavéis a desfrutarem da natureza pródiga, num ambiente de paz santificada.

 


Porém, no pequeno espaço visual proporcionado pela janela do ônibus em seu roteiro pude observar as super avenidas, os portentosos edifícios, os monumentos históricos, as praças do tamanho de campinas, algo negativo feriu meus olhos provocando-me um sentimento de pesar e revolta ao mesmo tempo: a profusão de pichações que enfeiam e dão uma característica de terra de ninguém a Capital Federal, nosso maior símbolo pátrio dos tempos modernos.  Que quadro! Que desrespeito!

 


Desde que se entra na cidade satélite de Luziânia, e daí por diante, não há um muro se quer, um monumento, uma coluna de ponte, uma superfície em plano vertical que não esteja emporcalhada com grifos, riscos e rabiscos – ou outra denominações que se queria dar a essas pichações – num testemunho silencioso que depõem contra nossa pretensão de sermos seres civilizados.

 

Comentando com um passageiro vizinho ouvi deste que nem o Teatro Nacional, uma das obras mestras de Oscar Niemeyer, escapou das pichações.

 


E o curioso é que nessas pichações por mais que me esforçasse não consegui ler – ou ver – nenhuma mensagem, nenhuma letra do alfabeto, nenhum símbolo religioso, ou coisa que o valha, que pudesse identificar grupos ou ser traduzido como protesto, a não ser o do emporcalhamento pura e simplesmente. Dando-me a impressão de que se trata de manifestação silenciosa contra os poderes constituídos e contra a situação de descalabro que reina na atual política brasileira enfeixada nos três poderes da República.

 


Porém, à medida que o veículo avançava deixando o Plano Piloto para trás, comecei a observar que as pichações rareavam cada vez mais para, logo ali, na cidade satélite de Sobradinho os muros encontrarem-se limpos e as fachadas permanecessem idem, com suas cores variadas, oferecendo, enfim, um aspecto agradável de cidade civilizada e de gente educada. Aleluia!

 

Restou-me daí a triste constatação de que tudo isso se tratava de uma anti-metáfora a indicar que os  pichadores, os enganadores, os mequetrefes, estão concentrados mesmo é só na Capital Federal.

 

 

 
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